O impossível aconteceu: mais apegada à casa que uma ostra às pedras, não pude resistir ao convite dos amigos. Eis-me na estrada, viageira, com todos os meus balaios. No fundo escutava o cético Drummond:
“Quer ir para Minas,
Minas não há mais”
Pois onde estarão as Minas das minhas saudades?
A casa de minha avó Ambrosina, o quintal das jabuti¬cabas frias e orvalhadas de manhã?
Lá, só lá, o luar era tão claro que iluminava como dia os retratos da sala. E as moças brincavam de ciranda no meio da rua. Os oleiros giravam os tornos e o bar¬ro ia tomando feição de pote, de moringa... As crianças por ali, à espera de que, numa sobra de tempo, o oleiro fizesse as moringuinhas de brincar. E eram sempre atendidas.
À tarde, a gente subia na torre para mirar os belos horizontes que deram nome à cidade, e contava:
"Olha lá, já tem cinco prédios! Seis! Sete!"
Parei nos onze e parti. Hoje os prédios taparam o horizonte, o trânsito expulsou das ruas as crianças, os oleiros e as cirandas.
Os retratos desbotaram, exilados das salas de azulejos e begônias. Minas não há mais, Drummond está certo, assim eu pensava.
No entanto, deixamos a capital para trás e percorremos montanhas e montanhas.
Aonde nos conduzirá este silencioso suceder de alturas e vales? Cecília Meireles descreve no Romanceiro da Inconfidência:
“Passei por estas plácidas colinas e vi das nuvens, silencioso o gado, pascer nas solidões esmeraldinas.”
As montanhas foram descerrando Ouro Preto.
Não foi de sopetão o encantamento; ele me penetrou aos poucos nas ladeiras, nos sobrados, nos chafarizes.
"Esta cidade não morreu, ela apenas mudou", ex¬plica Manuel Bandeira no Guia de Ouro Preto.
Ela resistiu escondida atrás dessas montanhas.
Em outras cidades históricas, passado e presente se defrontam com estranheza. Em Florença o turista se aproxima do altar de Giotto, mas este só se ilumina mediante a moeda posta num caça-níqueis. Os anjos do pintor desviam os olhos para um céu inacessível.
Aqui, o passado estende as mãos para nós, afaga o presente; entre seus dedos mal fechados, escapam as mesmas velhas de mantilha para a missa do Carmo, do Rosário, do Pilar.
Burrinhos carregados de lenha se detêm nas por¬tas, vendendo sua carga. Os prodigiosos mendigos de Minas passam, altos e visionários.
Os batuques à noite, dos fundos de Ouro Preto, sobem de suas entranhas misteriosas por todas as ladeiras.
Negrinhos sambam no largo, nos becos, nas esqui¬nas. Foram os negros que construíram as incomparáveis igrejas do Rosário dos Homens Pretos, de Santa Ifigênia. Mulato era o Aleijadinho que esculpiu a sublime fachada da igreja de São Francisco. Mulato era Manuel da Costa Ataíde, que pintou no forro da mesma igreja sua Nossa Senhora de cabelos crespos e tez morena.
A Ouro Preto dos negros alforriados é o berço dos movimentos libertários da Inconfidência. Suas irmandades eram, no século XVIII, o único apoio contra os poderosos: elas tratavam os doentes, enterravam os mortos, compravam uma a uma a alforria dos cativos.
Nossa Senhora das Mercês e dos Perdões aparece no forro de sua igreja quebrando os grilhões que prendiam dois miseráveis.
As mesmas irmandades hoje zelam pelos altares que enfeitam com flores ingênuas dos quintais. Não gostam que o turista, durante o culto, fique olhando as imagens, os tetos, com aquela expressão de pasmo de quem entra na Matriz do Pilar. Reprovam a curiosidade. Mas, por acaso, à beira de nuvens douradas, não nos espiam também esses anjos curiosos?
Segurando tochas, guirlandas, bandolins, eu os escuto cochichar nos capitéis das velhas igrejas de Minas.
Ouro Preto não é um museu, nem uma praça, nem algumas ruas. É um mundo que é preciso percorrer caminhando.
Você tem que procurar Ouro Preto na oficina do sapateiro, na procissão das candeias, nas conversas de sacada a sacada... Nos velhos sentados nas soleiras ga¬bando seus bons ares... Nesse povo tão doce que é a expressão mais completa de uma cidade civilizada.
A cidade foi confiada aos jovens. Eles vêm aqui estudar e moram nas repúblicas de nomes curiosos (Si¬na Doida, Pulgatório, Saudades de Mamãe, Chove Lá Fora, Pinga K Dentro ...).
Nós os vemos aos bandos, bebendo nos chafarizes, dançando à noite no largo, comendo barato no restaurante da Escola de Minas...
A cidade tem para eles entranhas maternais: vê-Ias aqui é ver uma chusma de garotos beijando o rosto da avó.
Na minha última noite em Ouro Preto fui ao lar¬go ver os batuques. A estátua de Tiradentes fica no al¬to de uma coluna, rodeada de degraus. Esta coluna es¬tava forrada de jovens, como andorinhas num beiral. Bem que eu gostaria de sentar-me com eles, mas os degraus eram altos demais. De repente, fui içada pa¬ra o alto e lá estava respirando ar fresco, escutando música.
Ouvi Tiradentes repetir a mensagem que espalhou anseios de liberdade e justiça: ‘Adeus, que trabalhar vou para todos!’.
Ficamos ali, a seus pés, dentro do mesmo sonho, contando infinitas estrelas, enquanto não despontou o dia. BOSI, Ecléa.Velhos amigos.São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2003.